Morangos mofados

À moda de Nabokov e outros grandes autores (especialmente quando de trata de contos), Caio F. tem facilidade em cooptar empatias por meio de uma capacidade avassaladora de imergir o leitor em seus sets cinemáticos povoados por bons "atores" e bons diálogos. Ainda mais interessante e idiossincrático que a via escolhida aqui para a incorporação da técnica, entre todos os sentidos da experiência humana, tenha sido a tátil:
"Sem querer, quase estremeceu de frio. Ou uma espécie de medo. Esfregou a palma seca da mão esquerda contra a coxa. A voz dela ficou mais baixa quando perguntou:
— E se eu fosse até aí?
Os dedos dele tocaram o maço de cigarros no bolso da calça. Ele contraiu o ombro direito, equilibrando o fone contra o rosto, e puxou devagar o maço.
— Sabe o que é — disse.
— Lui?
Com os dentes, ele prendeu o filtro de um dos cigarros. Mordeu-o, levemente.
— Alô, Lui? Você está aí?
Ele contraiu mais o ombro para acender o cigarro. O fone quase se desequilibrou. Tragou fundo. Tornou a pegar o fone com a mão e soltou pouco a pouco o ombro dolorido soprando a fumaça.
— Eu já estava quase dormindo."

O autor é frequentemente tratado por "representativo": de uma sexualidade, de uma geografia, de uma geração reprimida (a opção de enquadramento que faz Heloísa Buarque de Holanda no prefácio deste), mas classificá-lo como "só" cada uma dessas coisas é desserviço. Para além desses limites, esta é uma literatura acima de tudo humana — e, apesar de muitas vezes saborosamente datada na ambientação, atemporal em sua humanidade.


Morangos mofados
Caio Fernando Abreu

ISBN-13: 9788522006465
ISBN-10: 8522006466
Ano: 1982 (ed. 2005) / Páginas: 160
Idioma: português
Editora: Agir

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