A cama na varanda

Apesar da aparente proposta de amplo escopo de cobertura – especialmente nesta edição “Novas Tendências” – A Cama na Varanda padece de alcance reduzido devido a duas limitações estruturais. A primeira, de menor impacto, é a redução simplória da narrativa da história da humanidade, em todas as épocas e lugares, a uma linha do tempo na qual a substituição do matriarcado pelo patriarcado informa como todos os problemas em que alguma relação social esteja envolvida deveriam ser analisados, digeridos e enfrentados. Muitas vezes corretos “por atacado”, alguns desses approaches não só estão expostos a questionamentos de primeira ordem como correm o risco de subestimar a inteligência do leitor na tentativa de criação rápida de empatia.

A segunda limitação, mais séria, resulta do survival bias que é inerente à experiência empírica da autora em consultório: pessoas buscando terapia com interesses específicos na área da sexualidade fazem parte de um grupo ínfimo dentro do cenário completo das dinâmicas coletivas de uma sociedade e, além de em si mesmos já configurarem um tipo de bolha estatística, constituem amostra frágil demais para embasar confirmações de vieses comportamentais em variadas faixas etárias, sociais e até mesmo geográficas – informações especialmente relevantes em um país como o Brasil.

A ampliação da edição antiga merece o crédito de acertar previsões difíceis com um bom grau de eficácia, principalmente nos núcleos aos quais esta involuntariamente se restringe; mas a visão geral do todo ainda fica aquém do objetivo proposto, surpreendentemente engessada por conceitos já obsoletos.


A Cama na Varanda
Regina Navarro Lins

Ano: 2007 / Páginas: 480
Idioma: português
Editora: Best Seller

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