Dias de abandono
Elena Ferrante (quem seja por trás do pseudônimo) possui a rara capacidade de exercer com maestria uma literatura poderosamente imagética – tanto para colocar com facilidade o leitor na pele das personagens em cenas cotidianas (e nem por isso menos memoráveis) quanto para conjurar realidades imaginadas de surpreendente motricidade.
Porém, a coragem estética destoa da insegurança (desnecessária) evidenciada pela necessidade de garantir tão acintosamente a empatia do público através de um vilão óbvia e facilmente odiável (Mario, o macho – marido que larga mulher, filhos e cachorro por uma jovem groomed), a ponto de nivelar a densidade da proposta pelo mínimo denominador comum.
Além disso, há um outro fator de impacto negativo ainda maior – e talvez, em última instância, fatal para a coesão da obra (descartando-se a possibilidade de cinismo puro e simples): tudo que acontece à personagem principal (independentemente de bom ou ruim) só acaba validado após escrutínio do contraponto masculino externo à ela – seja do ex-marido, do possível novo affair ou de um pretendente semi-indesejado. Mesmo quando estes sequer estão presentes, Olga invariavelmente mede sucessos e fracassos por seus pontos de vista (através de lembranças, reações, cenários imaginados), terminando por reduzir a narrativa a um tradicional conto de princesa – ainda que bem disfarçado pela roupagem dinâmica e moderna.
ISBN-13: 9788525061836
ISBN-10: 8525061832
Ano: 2002 (ed. 2016) / Páginas: 184
Idioma: português
Editora: Biblioteca Azul

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