Dona Flor e seus dois maridos
Ao longo da leitura de Dona Flor e seus dois maridos a imagem de Jorge Amado armando sua arapuca em forma de livro vai se materializando na mente do leitor – a descrição pormenorizada de seu conterrâneo Mirandão (melhor amigo de Vadinho, primeiro marido de Dona Flor) antevendo a oportunidade do golpe é mais que sugestiva: “endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida”. Claro, patranheiros existem os que o são por esporte e os que, além disso, são gênios literários; este tomo é produto dos do segundo tipo.
A capacidade inata para o engabelamento se faz explícita na maestria com que a narrativa é conduzida globalmente. O autor cozinha o romance em fogo brando, construindo seus sabores até o limite tolerável do filler (e inclusive se arriscando a ficar malfalado no processo de encheção da linguiça) até que, invariavelmente, chacoalha as expectativas relacionadas à forma, condicionadas via inércia, de maneira a sacudir o leitor pelos ombros e botá-lo de volta na linha, agora com interesse e empatia redobrados – e demonstrando uma facilidade assombrosa ao fazê-lo em capítulos curtos de duas, três folhas, obras-primas quase casuais da literatura brasileira.
Guardadas as proporções – especialmente em relação ao potencial de alcance da obra – Jorge Amado serve aqui um épico quixotesco de lavra própria, que ao fim e ao cabo entristece não pela maneira com que a “esotérica e comovente história” (conforme dito na abertura dos trabalhos) é arrematada, mas pelo simples fato de que acaba e deixa saudade.

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