Elogio da madrasta
A dificuldade em tratar tal premissa, em tais circunstâncias (erotismo, com os agravantes de tabus empilhados sobre tabus), enquanto se pretende levado a sério num ambiente de alta literatura, faz Vargas Llosa – totalmente consciente da decisão e direções tomadas para tal fim – tratar a dinâmica do consumo da obra pelo leitor mais como pugilismo: estudando o oponente, acerta golpes fracos, esquiva; fecha a guarda num primeiro momento enquanto planeja uma abertura calculada no seguinte; choca e relativiza, avança e recua, morde e assopra.
Quanto à estruturação prática desse processo, o autor ataca em frentes intercaladas: em paralelo à narrativa principal (mais concreta e factível), pequenos contos (baseados em pinturas reais e que poderiam sobreviver por si mesmos, independentes deste livro em si) vão sendo costurados à espinha dorsal da estória de modo a travar o mesmo embate em nível mais abstrato, surreal, e por isso mesmo de forma mais subversiva – e provavelmente ainda mais eficaz.
Vargas Llosa sobrevive bem ao crivo do julgamento artístico, enquanto dilui, zombeteiro, as fronteiras entre hedonismo e escravidão, sagrado e profano, misterioso e aterrorizante, angelical e demoníaco.

Comentários
Postar um comentário