Canto geral
Muito mais do que uma coleção antológica de poemas, Canto Geral é um épico enciclopédico; ou ainda mais, um tratado histórico-político sobre América Latina.
Neruda abusa da liberdade poética para ampliar ou diminuir o escopo do trabalho de forma a servir sua curadoria: desde a narração de um passado mítico coletivo imemorial (inclusive em escala geológica) até a de seu próprio testamento (inerentemente pessoal e comparativamente limitado temporalmente) – passando pelo registro meticuloso de personagens e fatos do seu tempo – o autor controla ponderadamente o que merece figurar como conteúdo de seu compêndio.
Lido em tempos atuais, Canto geral é um testemunho de uma época violenta, de incertezas quanto ao futuro, mas surpreendentemente mais simples: um tempo em que inimigos e aliados, opressores e oprimidos, santos e demônios ainda podiam ser retratados em filme preto-e-branco com a confiança romântica na solidez das ideologias – e também, de certa forma, com a inocência de uma esperança inquebrantável que chega a ser comovente.

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