O amor nos tempos do cólera
A estrutura narrativa circular forjada aqui por Gabriel García Márquez é vanguardista: parte de um (dissimulado) pré-fim com o único propósito de apresentar ao leitor seus personagens; volta aos seus inícios para, aí sim, construir propriamente estes mesmos personagens; e devolve o leitor ao ponto de partida original – agora com conhecimento de causa suficiente para julgamentos, empatias, decepções e expectativas – antes da conclusão definitiva.
Mas apesar da forma moderna, o conteúdo não nega sua temática (às vezes até assustadoramente) atemporal: o amor, e principalmente o amor sob condições adversas: em meio a pandemias, crises políticas, sociedades disfuncionais, distâncias intransponíveis, mal-entendidos e, sobretudo, os limites físicos (também temporais) da existência humana.
O amor nos tempos do cólera pode ser lido com espanto pelos que o considerarem a narração de uma obsessão doentia; com ternura pelos que se identificarem com a estória de determinação de um amor que procura sobreviver à passagem do tempo; ou com pungência por qualquer leitor (de ambos os vieses) que já tenha deixado a melhor parte da vida pra trás.

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