Dom Casmurro
Mestre do controle da narrativa, Machado negocia constantemente as dinâmicas de Dom Casmurro (na pele do próprio personagem/narrador) com o leitor: ora reconhece a possibilidade de tédio e descarta alguma descrição extra, ora convence o leitor de que uma anedota ou duas sobre um dado personagem são imprescindíveis para que um perfil minimamente aceitável seja traçado; ora desdobra um capítulo único em dois, ora encurta o próximo – tudo com a transparência habitual que costuma trazer atemporalidade à sua prosa.
Quanto ao conteúdo o simples relato da vida (por extensão) prosaica do protagonista – da infância à maturidade, passando por dilemas familiares, pessoais e (principalmente) amorosos – não colocaria o livro sequer entre os melhores textos do próprio Machado, quanto mais da literatura universal.
Mas a proposta (sugerida na sutil passagem em que o narrador diz preferir livros "omissos" a "confusos", já que os primeiros permitem ao leitor criar memórias inesquecíveis por conta própria só por preencher as lacunas) é realizada não através das coisas contadas, mas antes mais das coisas não ditas. Habilmente, Machado convida cada leitor a ser seu coautor enquanto lê, e ao fim do processo se transformar em ferrenha testemunha voluntária de acusação ou defesa das personagens – enquanto o livro segue se imortalizando neste processo indefinidamente renovável.

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