Os trabalhadores do mar
Ao contrário de outros autores de clássicos marítimos (Herman Melville em Moby Dick, Júlio Verne em Vinte mil léguas submarinas, Ernest Hemingway em O velho e o mar, etc.) Victor Hugo não alça o mar e seus atores à categoria de protagonistas; simplesmente os usa como pano de fundo para um romance em sua definição mais literal e (quase goticamente) trágica.
Ainda assim Os trabalhadores do mar pode interessar ao público que tem preferência por esta temática pela competência com que Victor Hugo pormenoriza detalhes geográficos, biológicos, náuticos e, especialmente, humanos – tripulantes diversos são esmiuçados em seus perfis psicológicos, inclusive com usos narrativos de thriller moderno que surpreendem pelo frescor que emprestam à obra mesmo 150 anos depois de sua publicação. Afora este público específico, quem suportar o que hoje seria considerado “excesso descritivo” vai encontrar aprofundamentos em temas muito específicos resultantes da polaroid daquele momento: o contraste entre franceses e ingleses devido à localização de Guernesey (ilha no Canal da Mancha onde o romance se passa e onde o autor viveu exilado); o início da revolução industrial, representada pela chegada de barcos à vapor; as superstições ainda vivas nos povos isolados dos grandes centros; e sobretudo o humanismo na observação do flagelo e pobreza de pessoas marginalizadas – tema caro ao autor de Os miseráveis.
Por si só Os trabalhadores do mar seria um romance comum como outros de sua época: uma estória de amor com ingredientes trágicos e épicos. Mas a capacidade de observação do autor somada a um certo ceticismo cínico tipicamente francês eleva a obra a outros patamares.

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