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Morangos mofados

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À moda de Nabokov e outros grandes autores (especialmente quando de trata de contos), Caio F. tem facilidade em cooptar empatias por meio de uma capacidade avassaladora de imergir o leitor em seus sets cinemáticos povoados por bons "atores" e bons diálogos. Ainda mais interessante e idiossincrático que a via escolhida aqui para a incorporação da técnica, entre todos os sentidos da experiência humana, tenha sido a tátil: "Sem querer, quase estremeceu de frio. Ou uma espécie de medo. Esfregou a palma seca da mão esquerda contra a coxa. A voz dela ficou mais baixa quando perguntou: — E se eu fosse até aí? Os dedos dele tocaram o maço de cigarros no bolso da calça. Ele contraiu o ombro direito, equilibrando o fone contra o rosto, e puxou devagar o maço. — Sabe o que é — disse. — Lui? Com os dentes, ele prendeu o filtro de um dos cigarros. Mordeu-o, levemente. — Alô, Lui? Você está aí? Ele contraiu mais o ombro para acender o cigarro. O fone quase se desequil...

Lugar de fala

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Na esteira da rápida massificação tanto dirigida quanto emergente (e o consequente e inevitável uso indiscriminado) da expressão, Lugar de fala oportunamente se propõe a ser um guia didático sobre suas (incertas) origens, referências diversas e possíveis limites. O objetivo, no entanto, vai ficando pelo caminho com o acúmulo de problemas de realização. Alguns desses, menos significativos (a incoerência estilística, por exemplo), podem até ser deprezados como questões meramente estéticas; outros, como traduções truncadas nas referências estrangeiras, causam impacto mais direto na imersão e engajamento do leitor. Detalhes à parte, a falha capital que permeia o livro se sobressai a todos os outros erros e acertos: ser inacessível ao leitor não iniciado academicamente — anulando com isso a própria premissa que norteia o projeto. Lugar de fala Djamila Ribeiro ISBN-13: 9788598349688 ISBN-10: 8598349682 Ano: 2017 (ed. 2019) / Páginas: 112 Idioma: português Editora: Polén Livros Li...

Madame Bovary

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Madame Bovary , como toda obra prima (independentemente da mídia), é atemporal: paralelos podem facilmente ser traçados entre a sociedade da época e a dos tempos atuais – assim como entre tais atores, tecnologias, valores políticos e outros assuntos a escolher. Para além desse approach mais anedotário, identificar o caratér revolucionário por detrás da aparente façade de simples "romance" é vital para a compreensão – e apreciação – da obra. Quando Flaubert eventualmente decide puxar o fio da arapuca e começar a demolição completa do romantismo de dentro pra fora, o processo é tão definitivo, o massacre tão irrefreável, que chega a ter efeito retroativo: indiretamente, ridiculariza toda a arte anterior que tenha tratado do tema – e por fim o próprio leitor desavisado que tenha nutrido paixão (seja simpatia ou antipatia) pelos personagens há pouco descritos pelo próprio autor. Madame Bovary Gustave Flaubert ISBN-13: 9788520939949 ISBN-10: 8520939945 Ano: 1857 (ed. 20...

Crônica de uma morte anunciada

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Mola propulsora – ou antes ainda, alvo a ser atingido –, a "morte anunciada" do título acaba por fazer da novela mais exercício narrativo do que simples veículo para ficção tradicional: queimada a carta final – o fato "morte", ou o "o quê" – na largada desde a capa, a dificuldade aqui seria tornar os "comos" (personagens e eventos que levam o fato a ser consumado) interessantes o suficiente para sustentarem a ilusão de pé. À moda de García Márquez, as menos de 200 páginas do livro não dão conta da infinidade de peças que contribuem para a eventual solução do quebra-cabeças (apresentações são feitas literalmente até a última página) e das ainda mais numerosas pontas soltas que teriam levado os envolvidos até ali; mas para muito além da dificuldade de acompanhar o ritmo do autor, Crônica de uma morte anunciada é uma oportunidade única de acesso rápido à um fluxo imaginativo deslumbrante, que mina de uma fonte aparentemente inesgotável. Cr...

Barba ensopada de sangue

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Difícil dizer se os excessos descritivos que sobrecarregam Barba ensopada de sangue são uma decisão estilistica (que emprestaria ao romance um caráter policialesco por vias estéticas, para além do conteúdo) ou projeção de uma visão sólida de mundo – se não, ao menos um esforço de convencimento nesse sentido – por parte do autor; difícil também separar o personagem principal do narrador (e estes de Galera) quando todos soam tão semelhantes. Apesar de bem servido de personagens e eventos interessantes, o tiro longo (em contraste com a narrativa mais compacta do romance de estreia Até o dia em que o cão morreu ) desgasta o investimento do leitor neles – a ponto de transformar as últimas cinquenta páginas de thriller em tormento pelos motivos errados. Barba ensopada de sangue Daniel Galera ISBN-13: 9788535921878 ISBN-10: 8535921877 Ano: 2012 / Páginas: 424 Idioma: português Editora: Companhia das Letras Livros do autor na Amazon

Cada homem é uma raça

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O português de África do moçambicano Mia Couto já é, em si mesmo, um veículo carregado de conteúdo extra nas entrelinhas (seja pelo vocabulário local incorporado, pela ressignificação das palavras importadas ou pela síntese da sabedoria antiga em novos ditos na língua invasora) e traz consigo o valor inerente de propor visões de mundo únicas e peculiares a leitores ditos “ocidentais” – alfabetizados linguística e cognitivamente por parâmetros europeus. Para além disso (e também por isso), as estórias de Mia – mesmo as marcadas por sofrimento e melancolia – incorporam sempre às narrativas a sensação indefinida de pertencimento na forma de uma espiritualidade cujos domínios avançam para muito além dos eventos individuais e passageiros narrados naquele momento. Aqui, como na natureza (que bem pode ser a divindade maior nesse sistema milenar de lógicas abstratas porém profundas), todas as coisas se transformam – nunca deixando simplesmente de existir; e a esperança de que essas mu...

Até o dia em que o cão morreu

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Para além de uma simples obra de ficção, Até o dia em que o cão morreu pode ainda (ou principalmente) ser lido como um trabalho de crônica: tanto retrata um corte geográfico (na representação de uma forma particularmente sulista de se abalroar a vida agressiva e inconsequentemente) quanto registra seu tempo – pelo ponto de vista de uma geração pós-tudo, com tanto desprezo pelo status quo vigente nas sociedades capitalistas quanto outras anteriores, mas já sem nenhuma fé nas chances de mudança pela ação dos indivíduos. Apesar do niilismo (ou talvez apenas apatia pura e simples) do protagonista, o texto tem fuidez suficiente para manter vivo o interesse do leitor pelo tiro curto (e também favorável) das pouco menos de 100 páginas do livro sem incorrer no risco inerente de estagnação. Até o dia em que o cão morreu Daniel Galera ISBN-13: 9788535909876 ISBN-10: 8535909877 Ano: 2003 (ed. 2007) / Páginas: 104 Idioma: português Editora: Companhia das Letras Livros do autor na Amaz...