Dona Flor e seus dois maridos
Ao longo da leitura de Dona Flor e seus dois maridos a imagem de Jorge Amado armando sua arapuca em forma de livro vai se materializando na mente do leitor – a descrição pormenorizada de seu conterrâneo Mirandão (melhor amigo de Vadinho, primeiro marido de Dona Flor) antevendo a oportunidade do golpe é mais que sugestiva: “endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida”. Claro, patranheiros existem os que o são por esporte e os que, além disso, são gênios literários; este tomo é produto dos do segundo tipo. A capacidade inata para o engabelamento se faz explícita na maestria com que a narrativa é conduzida globalmente. O autor cozinha o romance em fogo brando, construindo seus sabores até o limite tolerável do filler (e inclusive se arriscando a ficar malfalado no processo de encheção da linguiça...