Torto arado
As vivências, experiências, conhecimentos – e até mesmo, em níveis mais abstratos, a boa-fé e o carinho – do autor para com a cultura afrobrasileira (especialmente quilombola) são flagrantes e inescapáveis na leitura de Torto Arado ; porém esta mesma potência impulsionadora abre um flanco importante no resultado final da obra, que é a dificuldade em manter a coesão no manejo do eu-lírico. Independentemente do refinamento técnico no acabamento do texto, o maior valor do romance está na rara energia concentrada da mola propulsora principal de seu discurso, que já na primeira dúzia de páginas coloca o andamento do livro num quase moto-contínuo; o mesmo se repete (ainda que em menor nível) no início de cada um dos dois "atos" subsequentes com as mudanças de perspectiva narrativa, ajudando ainda na sustentação desse movimento até sua conclusão. Torto Arado surge como uma via de duas mãos num momento de quebra de paradigmas sociais/culturais, especialmente a nível naciona...