Cada homem é uma raça
O português de África do moçambicano Mia Couto já é, em si mesmo, um veículo carregado de conteúdo extra nas entrelinhas (seja pelo vocabulário local incorporado, pela ressignificação das palavras importadas ou pela síntese da sabedoria antiga em novos ditos na língua invasora) e traz consigo o valor inerente de propor visões de mundo únicas e peculiares a leitores ditos “ocidentais” – alfabetizados linguística e cognitivamente por parâmetros europeus. Para além disso (e também por isso), as estórias de Mia – mesmo as marcadas por sofrimento e melancolia – incorporam sempre às narrativas a sensação indefinida de pertencimento na forma de uma espiritualidade cujos domínios avançam para muito além dos eventos individuais e passageiros narrados naquele momento. Aqui, como na natureza (que bem pode ser a divindade maior nesse sistema milenar de lógicas abstratas porém profundas), todas as coisas se transformam – nunca deixando simplesmente de existir; e a esperança de que essas mu...