Fahrenheit 451
Como é usual acontecer com (boas) ficções (científicas ou não) distópicas, Fahrenheit 451 sofre do mal da inocência póstuma quando acerta no conteúdo mas não necessariamente na forma: ao descrever um mundo onde pessoas vivem imersas em salas com telas no lugar de paredes e convivendo com uma programação customizada que chega a se passar por "família" o escritor soa até pueril 70 anos depois se confrontado à atual disponibilidade das mesmas falsas e superficiais relações de intimidade disponíveis em redes sociais e com seu conteúdo gerado voluntariamente – ainda com o agravante de que a materialização de tal imersão se dê através de uma única tela que caiba nas palmas das mãos dos produtores/produtos, num sistema que se alimenta de si mesmo sem esforço necessário por parte de governos, religiões ou ideologias. A narrativa soa ainda mais romântica quando se percebe que na realidade o tema central da mesma é a própria literatura em si, especificamente na figura do obje...