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Mostrando postagens de outubro, 2020

Ideias para adiar o fim do mundo

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Como produto editorial Ideias para adiar o fim do mundo é um esforço para transformar diálogos em livro: duas palestras (nem sempre planejadas, como o próprio autor testemunha) e uma entrevista são transcritas na tentativa truncada de organizar formalmente um pensamento inerentemente espontâneo. A despeito da aparente (ao menos na superfície) fetichização de uma utopia alternativa pós-moderna e de propostas práticas quase não se fazerem presentes no projeto o livro ainda traz um sopro de ar fresco ao apresentar o pensamento nativo filosoficamente livre de Krenak pulsando com vida mesmo imerso em problemas contemporâneos e do cotidiano moderno, demonstrando a possibilidade da aplicação desses conceitos e valores fora da esfera mítica folclórica – pensamento este mais obviamente necessário na era pós desastres ambientais sem precedentes na história do Brasil, especialmente quando, além de pessoas, rios inteiros morrem nesse processo. Krenak não necessariamente oferece soluções ...

a máquina de fazer espanhóis

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Apesar de excessivamente reverente – e até derivativo, principalmente na forma – da literatura portuguesa já consagrada (Pessoa, Saramago), Valter Hugo Mãe consegue criar um slice of life com camadas distintas de recheio que dão ao livro mais chances de agradar paladares variados conforme o gosto por cada assunto: em nível profundo trata da identidade imemorial portuguesa; sobre essa base, ergue uma crítica aos cinquenta anos de ditadura salazarista no país – e, por consequência, à qualquer outra ditadura de qualquer outra época em qualquer outra nação; mas, acima de tudo, faz uma reflexão humanista sobre envelhecer. Teoricamente mais eficiente em audiências maduras (não necessariamente de idade, mas ao menos da ideia avivada de finitude) o texto pode ter um sabor extra para brasileiros particularmente interessados em entender de onde vem não a identidade portuguesa, e sim a nossa própria – e talvez perceber o quanto não somos uma fruta caída assim tão longe do pé. A máquina ...

O gênio e a deusa

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Como narrativa O gênio e a deusa segue uma linha razoavelmente tradicional na descrição da estória do então (simplório, apesar da inteligência) estudante de física John Rivers começando sua convivência com a família Maartens (‘gênio’ e ‘deusa’ são seu mentor e esposa, respectivamente), com pitadas de Poe e Dickens (ambos autores citados ao longo do texto) no tempero do curto romance que chega a ser um conto moral. Mas o valor do livro não está nessa estrutura nem na própria narrativa em si; na verdade estas funcionam somente como moldura para Huxley, na voz do próprio narrador (John Rivers já velho, relembrando as memórias numa noite de natal), questionar de forma aparentemente casual as noções de valor, verdade e referência do leitor. Um a um tabus vão sendo revirados, desmistificados e/ou desprezados ao longo do texto: religião, moralidade, política, cultura, espiritualidade, comportamento social... A ironia está no uso superficialmente familiar da forma de narrativa como C...